AMOR21:AS RELAÇÕES EM FOCO


Amor Platônico: Parte do Primeiro Capítulo da Minha Dissertação

 

A abordagem sobre o amor que marca a antiguidade ocidental são conceitos platônicos estruturados em “O banquete”, obra composta por diálogos, onde sete oradores dispõem elogios ao deus Eros em comemoração à vitória de Agatão, num concurso de tragédias. Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes, Sócrates, Alcibíades e Agatão são os autores dos discursos, e conceituam o amor em diversas possibilidades.

O discurso de Fedro, primeiro orador, apresenta Eros como o deus mais antigo que surgiu depois do Caos da terra. Eros é divindade impressionante não apenas para os homens, mas também para os pares, pois seu domínio se estende a todos os seres do cosmos. De tudo o que o ser humano pode ter – vínculos de sangue, valores como dignidade e ética – apenas Eros pode fazer nascer a beleza, por ser o mais antigos dos deuses.

Assim, de muitos lados se reconhece que Amor é entre os deuses o mais antigo. E sendo o mais antigo é para nós a causa dos maiores bens. Não sei eu, com efeito, dizer que haja maior bem para quem entra na mocidade do que um bom amante, e para um amante, do que o seu bem-amado. Aquilo que, com efeito, deve dirigir toda a vida dos homens, dos que estão prontos a vivê-la nobremente, eis o que nem a estirpe pode incutir tão bem, nem as honras, nem a riqueza, nem nada mais, como o amor. (PLATÃO, 1987, p.45)

 

Pausânias, segundo orador, estabelece um paradoxo entre o amor pandemia (popular/vulgar), que valoriza no amor mais o corpo que a alma; do amor urânio ou celestial, que ama mais a alma que o corpo.  Para ele, qualquer ação realizada não é, em si mesma, nem boa nem ruim. Para que uma ação seja boa, ela deve ser fundamentada na justiça. O mesmo acontece com o amor. Assim, atender apenas ao Eros popular é prender-se, exclusivamente, aos caprichos da matéria.

Erixímaco é o terceiro orador e complementa o discurso de Pausânias ao referir  que o Eros não existe somente nas almas dos homens, mas em muitos outros seres. Como médico, defende que a natureza orgânica comporta dois Eros: saúde e doença. Um é o amor que pertence ao corpo são; o outro é o que reside no corpo enfermo. Tal qual a medicina, que procura a convivência entre os contrários, o amor deve procurar essa harmonia entre as necessidades físicas e espirituais.  “A natureza dos corpos, com efeito, comporta esse duplo amor; o sadio e o mórbido são cada um reconhecidamente um estado diverso e dessemelhante.” (PLATÃO, 1987, p.09).

Aristófanes apresenta o célebre e polêmico mito dos ”andróginos” que representa nossa unidade primitiva e posterior mutilação. Para ele, havia inicialmente três gêneros de seres humanos, que eram duplos em si mesmos: os machos, que tinham dois sexos de homem; as fêmeas, com dois sexos de mulher e os andróginos detentores de ambos os sexos. O macho, explica Aristófanes, nasce do sol; a fêmea da terra, a espécie mista (os andróginos) da lua, que participa daquele e desta.  Registra que o sol, a terra e a lua – pela força e ausência de medo – buscam escalar o céu para combater os deuses. Diante de um ato tão ousado, Zeus decide puni-los, segmentando-os em dois: 

Depois de laboriosa reflexão, diz Zeus: “acho que tenho um meio de fazer com que os homens possam existir, mas parem com a intemperança, tornados mais fracos. Agora, com efeito, continuou, eu os cortarei a cada um em dois, e ao mesmo tempo eles serão mais fracos e também mais úteis para nós, pelo fato de se terem tornado mais numerosos;  andarão eretos, sobre duas pernas, se ainda pensarem em arrogância e não quiserem acomodar-se, de novo, eu os cotarei em dois, e assim sobre uma só perna eles andarão.” Logo que o disse pôs-se a cortar os homens em dois. (PLATÃO, 1987, p.12).

 

Findava-se assim a completude, a unidade. A partir de então, cada parte é obrigada a buscar a outra metade. A tal desejo, à procura, Aristófanes designa amor e, quando satisfeito, garante a felicidade. É o próprio conceito de amor fusional que liberta o indivíduo da solidão e recompõe a completude. Trata-se de amor exclusivo, pois cada um, tendo por situação uma só metade, só poderia viver um único amor (as bases para a monogamia).

Agatão destaca em Eros a juventude, a delicadeza, a beleza, a justiça, a coragem e várias outras virtudes, pois está na origem de todas elas. Agatão critica os antecessores, vez que considera que elevaram por demais a Eros sem, em princípio, explicar-lhe a natureza. “A única maneira correta de qualquer elogio a qualquer um é, no discurso, explicar em virtude de que natureza vem a ser causa de tais efeitos aquele de quem se estiver falando.” (PLATÃO, 1987, p. 14).

A partir da observação feita aos antecessores, Agatão passa a explicar que o amor é o mais belo dos sentimentos por ser o mais jovem dos deuses. Eros, segundo Agatão, se encarrega de manter a juventude através da fuga, pois o jovem amor tenta o tempo todo escapar da velhice para manter a beleza própria.

Dessa qualidade ele próprio se encarrega de ministrar-nos uma prova evidente: é a de que fugindo, evita ser alcançado pela velhice, que inegavelmente é em si mesma rápida, como se depreende do fato de vir a nós mais depressa do que deveria. Eros, de conformidade com sua própria natureza, sente verdadeiro ódio à velhice e não suporta sua vizinhança, nem mesmo a grande distância.  (PLATÃO, 1987, p 14)

 

Sócrates, o sexto a discursar, afirma que o amor é algo muito desejado, mas como objeto do desejo, só pode ser desejado quando  falta, pois ninguém deseja aquilo de que não carece. Deste modo, o que se ama é justamente o que não se tem. Ou seja, o objeto do amor é sempre ausente e, ao mesmo tempo, solicitado: “Não está então admitindo que aquilo de que é carente e que não tem é o que ele ama?” (PLATÃO, 1987, p. 19). O amor para Sócrates não significa completude, como no registro de Aristófanes, mas incompletude; não é presença, mas falta.

No discurso, Sócrates questiona a posição do amor fusional, caracterizada no mito dos “andróginos”. Amar é carência e uma vontade de querer possuir o objeto amado para sempre. Por isso, o amor não escapa da escassez absoluta. Visando a solucionar o problema do amor como falta, Platão propõe o “parto pela beleza”, pelo espírito ou pela família. A natureza mortal, para Platão, sempre busca a perpetuidade, mas só pode realizá-la por intermédio da geração, deixando sempre um indivíduo mais jovem no lugar de um mais velho ou pela criação na arte, na política ou na filosofia, pois uns parem segundo o corpo e outros segundo o espírito. São duas soluções para escapar dessa incompletude.

Por conseguinte, aqueles que estão fecundados em seu corpo voltam-se de preferência para as mulheres, e é desse modo que são amorosos, pela procriação conseguindo para si imortalidade, memória e bem-aventuranças por todos os séculos seguintes, ao que pensam; aqueles, porém, que é em sua alma- pois há os que concebem na alma mais do que no corpo. Entre estes estão todos os poetas criadores e todos os artesãos que se diz serem inventivos; mas a mais importante, disse ela, e a mais bela forma de pensamento é a que trata da organização dos negócios da cidade e da família, e cujo nome é prudência e justiça - destes por sua vez quando alguém, desde cedo fecundado em sua alma, ser divino que é, e chegada a idade oportuna, já está desejando dar à luz e gerar, procura então também este, penso eu, à sua volta o belo em que possa gerar; pois no que é feio ele jamais o fará. (PLATÃO, 1987, p.25)

 

Alcibíades procura muito mais fazer um elogio a Sócrates do que discorrer sobre o amor e relata experiências que tiveram no passado. Deste modo, em “O banquete”, Platão celebra Eros, sobretudo, pela ideia, onde cada um visa , através de  discursos, captar a essência do amor. Ao que parece, entretanto, os dois discursos de maior relevância e provocação são os de Aristófanes e Sócrates. Aristófanes, com a concepção da completude que busca o “elo perdido” ou a “alma gêmea”, como comumente é caracterizado na contemporaneidade; e Sócrates, com a proposição de incompletude, pois ama-se  o que  falta e, ao  encontrar-se, o sentimento esmorece.

O amor para Platão, deste modo, se estabelece como uma energia que estimula o indivíduo ao autoconhecimento, à verdadeira natureza. O amor, como revela Diotima – personagem na referida obra que ensina Sócrates – não pode ser belo nem feio, pobre ou rico, sábio ou ignorante, mortal ou imortal, homem ou deus. O amor é uma espécie de gênio mediador entre homens e deuses. Assim, apresenta-se como um poder desconcertante e instigador que orienta os homens na eterna busca pela felicidade e mostra que se é capaz de apreender que a beleza da alma é mais valiosa que a física, residindo aí a ideia essencial do conceito de amor platônico.



Escrito por ivandilson-miranda às 16h41
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